O professor Altair Sales Barbosa tem sido a
mais persistente voz em defesa do Cerrado. Ele é reconhecido como uma
das maiores autoridades científicas no estudo do bioma. Em entrevista ao
Jornal Opção,
de Goiás, Sales denuncia que a disputa por água no Oeste da Bahia entre
população local e multinacionais do agronegócio poderá gerar situação
de guerra civil. O especialista alerta, ainda, sobre a irreversibilidade
da destruição do Cerrado e as graves consequências que isso já está
gerando. Uma delas é a aguda redução dos mananciais e reservatórios de
água. “O desmatamento do Cerrado e sua ‘troca’ por áreas de cultivo de
monoculturas e pastagens são fatores que podem até momentaneamente
favorecer a economia e aumentar o PIB nacional, mas é como matar a
galinha dos ovos de ouro”, comentou.
Veja parte da Entrevista:
Elder Dias — O sr. escreveu, em um
artigo para o Jornal Opção, que o Oeste da Bahia está passando por um
processo que se configura como um conflito à beira de uma guerra civil. É
isso mesmo?
Sim, vamos às explicações. A região Oeste
da Bahia, a partir de 1970, vem sendo ocupada de forma indiscriminada
por grandes empresas multinacionais. É preciso, antes, uma explicação
sobre essa área, que compreende, além do Oeste da Bahia, também o Oeste
de Minas, parte do Piauí e parte do Maranhão. Essa região é coberta por
uma bacia de sedimentação, a que chamamos de bacia intracratônica, que,
por ser arenosa, tem rocha porosa. Esse tipo de rocha retém a água que
forma os aquíferos. A água, primeiramente, é depositada no lençol
freático, que, uma vez saturado, a faz se infiltrar nas rochas porosas e
se deposita nos aquíferos. Então, essa área antigamente tinha grande
abundância de água e era alimentadora do Rio São Francisco, que na
verdade só existe por causa dos pequenos rios do Oeste de Minas e da
Bahia.
Mas era uma área ocupada por Cerrado, de
solo muito pobre, oligotrófico, com grande grau de acidez e falta de
nutrientes básicos para desenvolver uma série de cultígenos [produtos
cultiváveis]. A partir de 1970, o grande capital internacional —
principalmente as multinacionais — descobriu essa região, e aliado ao
governo da ditadura militar da época, financiou a pesquisa no Brasil,
gerando empresas nacionais de pesquisa, dentre elas a Embrapa [Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária] e outras que foram se instalando
nos Estados, como a Emgopa e Emater [empresas estaduais goianas de
pesquisa e extensão agropecuária].
O objetivo dessas empresas era desenvolver
tecnologia para que aquele solo ruim do cerrado pudesse ser aproveitado
para a produção de commodities em larga escala, tanto de vegetais como
com a criação de determinadas raças especializadas de gado. Isso foi
possível e tem um lado positivo: o brasileiro é inteligente e, quando se
investe na pesquisa produtiva, ele dá respostas animadoras. As empresas
de pesquisa tiveram sucesso. Aquele solo impróprio pôde efetivamente
ser aproveitado para cultivo e criação de gado em larga escala. Foi
criada tecnologia para isso, usando o calcário para correção do solo,
adubos e equipamentos mecânicos para desmatamento de grandes áreas. Como
o Cerrado é uma área plana, isso se tornou muito fácil. A partir daí,
dentro de uma política nacional, o bioma passou a ser considerado uma
fronteira de expansão econômica e sua área passou a ser ocupada de forma
intensa cada vez mais.
Marcos Nunes Carreiro — E qual foi o problema específico daquela região do Cerrado no Oeste da Bahia?
O problema é que havia ali terras
devolutas, posseiros, comunidades indígenas, área de quilombos e até
moradores de descendência europeia — diz-se que imigrantes da Romênia
vieram colonizar a área do Rio do Meio, se perderam por ali e se fixaram
nas cabeceiras desse rio, estabelecendo povoados.
Na Bahia, essa área pertencia a um grande
município, Correntina, que depois foi dividido, e que abrigava todos
esses rios. Paulatinamente, as grandes empresas foram se instalando no
local. Ocorre que, para obter um grande nível de produtividade agrícola,
era preciso também grande quantidade de água, o que era fornecido de
forma suficiente pelos rios da região, uma vez que o aquífero que os
alimentava estava cheio. O aquífero era devidamente alimentado pelas
chuvas, já que estava preservada a vegetação nativa que suga a água da
chuva. Com o desmatamento crescente em larga escala na região, que
devastou totalmente o Cerrado — restaram hoje apenas pequenas ilhas —, a
água já não alimentava corretamente o lençol artesiano.
Consequentemente, os grandes proprietários que implantaram seus projetos
econômicos na região, começaram a fazer uma espécie de guerra pela
água.
Ocorre que cada pequeno povoado por ali
tinha pelo menos 3 mil pessoas que viviam e dependiam também dessas
águas para desenvolver sua agricultura familiar. Com o passar do tempo, a
água foi diminuindo e começou a haver uma situação de enfrentamento
entre o grande capital e os moradores antigos, posseiros da região, que
lá viviam há mais de 200 anos. Essa situação começou a gerar uma
realidade de pistolagem, uma vez que os grandes fazendeiros passaram a
contratar capatazes e jagunços que usavam de todo tipo de artimanha para
tentar expulsar o pessoal da região e assim tomar conta das terras.
Elder Dias — A partir de quando esse processo se intensificou?
A intimidação começou a ocorrer de forma
mais aparente por volta de 1985, mas se agudizou muito atualmente. As
grandes empresas vieram com um discurso fácil, de trazer desenvolvimento
e gerar empregos para as populações da região, consequentemente
angariando mais riqueza para as pessoas. Ocorre que o posseiro não tem a
titulação legal definitiva da terra, no máximo tem um título
provisório. Os fazendeiros chegaram comprando os cartórios e os
políticos de Salvador, que não entendem a realidade do lado oeste do São
Francisco, que é uma realidade totalmente diferente. O litoral é uma
coisa, mas o sertão da Bahia e o sertão de Minas é outra. Então, esses
empresários foram legalizando essas terras. São terras que englobam
milhares de hectares, você pode andar o dia todo de carro sem chegar ao
fim delas.
Com isso foi acontecendo uma modificação
radical na região. Os postos de serviço foram se transformando em
grandes núcleos urbanos. Um exemplo é Luís Eduardo Magalhães, que até
pouco tempo era um pequeno entreposto e hoje tem um alto padrão de
vida, com alguns hotéis de primeira classe cuja categoria talvez até
supere os de Goiânia. Isso ocorreu da noite para o dia em várias
localidades, viraram grandes polos urbanos. Só que esses polos são
basicamente constituídos por gente que não é do local. São pessoas
alienígenas, que vieram de foram e são regidas por esse grande capital
financeiro.
Na verdade, os proprietários dessas áreas
ou moram nas grandes cidades do País ou fora dele. E eles financiam os
capatazes, que são seus gerentes e que têm seus jagunços para implantar
ou ampliar seus projetos na região. Essas empresas contratam grande
número de técnicos especializados, que são amparados por esses
capatazes-jagunços, tomam conta da terra e vão produzir. Os primeiros
projetos produzem soja de forma espantosa, porque usam uma área que
inicialmente nem se sabia que servia para produzir soja. O mesmo vale
para o algodão e outras culturas.
Cezar Santos — O que aconteceu com a população nativa, ou o que vem ocorrendo?
Essa população nativa foi
desterritorializada, perdeu seu território. E um grupo de pessoas quando
perde seu território, perde também a noção de dignidade. Esse pessoal
vai, então, aos polos de desenvolvimento, buscar uma forma de
sobreviver. E aí começa uma série de explorações: é um trabalho em nível
de servidão, ou seja, trabalho escravo, porque as pessoas são
contratadas com contratos provisórios, carteira assinada às vezes com
duração de dois meses e são dispensadas ao fim da etapa do trabalho. O
mais grave: essa pessoa é dispensada de uma forma muito cruel. No
período do trabalho, faz tudo de forma intensiva: o preparo do solo, a
coleta dos tocos da vegetação desmatada pelo correntões [modo ilegal de
desmatamento] etc.
A pessoa tem de trabalhar muito, senão não
consegue dar conta da tarefa. E, nesse período, tem de morar na região,
viver na fazenda. Para viver ali, tem de comprar daqueles que chamamos
de “gatos”, que montam pequenas mercearias montadas para servir essa
população. Então, esses trabalhadores dormem mal, em barracas de lona,
cozinham seu arroz e feijão em latas e, quando chegam ao final do
período de trabalho, o dinheiro que têm a receber não dá para pagar a
dívida contraída com os “gatos”, as mercearias. Com isso, se tornam
escravos do proprietário, são vítimas daquela situação, sem poder sair.
Ele quer sair, mas não pode, porque os fazendeiros têm seus exércitos de
jagunços para intimidá-los. Então, esse trabalhador tem de ficar ali,
ganhando pouco e tentando sobreviver num trabalho escravo.
As mulheres mais velhas vão trabalhar como
empregadas domésticas desses grandes novos senhores alienígenas que
chegaram ao local. As mocinhas, mais novas e mais bonitas, acabam na
prostituição em borracharias, em postos de gasolina, ou em pequenos
serviços de pouca remuneração. Assim, começa a surgir um grande índice
de pobreza e de alta desumanidade com esses homens que trabalham nas
empreitadas, com a prostituição infantil e o tráfico de pessoas,
principalmente de mulheres, de uma área para outra.
Marcos Nunes Carreiro — E como isso se fecha de novo na questão da água?
Essa situação vem se agravando a cada dia,
porque novos polos incentivados pelo capital internacional vão surgindo.
Até chegar aos dias atuais, em que o Aquífero Urucuia, que abastecia os
rios da região, não tem mais água para sustentá-los. Um rio que tinha
quatro metros de fundo em determinados locais, hoje tem quatro
centímetros. A água tornou-se insuficiente para a população das cidades,
mesmo porque o número de habitantes cresceu.
E essa água também não é suficiente para
irrigar todos os tipos de cultígenos. Esses grandes proprietários
começaram então a lançar mão de uma série de artimanhas, desviando um
rio para cair em outro e fazer represas ou cavando profundamente e
desviando as cabeceiras para essas cavas, chamadas de piscinões, com a
finalidade de irrigar as lavouras durante determinadas épocas do ano. E o
pouco de Cerrado que subsiste na região está sendo cobiçado por grupos
econômicos estrangeiros — chineses e japoneses, principalmente, que
estão querendo investir na área — porque ainda há um pequeno filete de
água correndo superficialmente.
Então, onde há essa água correndo, estão
desmatando tudo e fazendo captação por pivô central para irrigar
plantações. O que isso tem gerado? Conflitos com o morador primeiro
dali, que sempre criou suas dez cabeças de gado, mas não pode soltá-las
mais na vereda à margem do rio porque aquilo que era dele já não é mais.
Se quiser colher um pequi que só nasce em determinada região, não pode
mais. Por quê? Primeiro, porque grande parte do Cerrado foi desmatada e,
segundo, porque a terra não mais lhe pertence, agora é de algum grande
proprietário. Temos, repito, muitos conflitos entre a população nativa e
os representantes desses grandes grupos internacionais
Cezar Santos — E quem são esses representantes?
Políticos assentados em Salvador e que não
conhecem a realidade do Oeste do Estado; gerentes locais, comprados a
alto preço; e institutos de meio ambiente, principalmente da Bahia,
comprados para fazer audiências públicas e legalizar o desmatamento.
Para ter ideia, lá ainda ocorrem desmatamentos com correntões. E são
áreas grandes em relação ao que existe atualmente — até porque não
existe muito mais a ser desmatado, se existisse, estariam destruindo uma
área ainda maior. Mas a última grande reserva de Cerrado que existe na
região — de 24 mil hectares, entre os rios Santo Antônio e do Meio —
está prestes a ser desmatada por um grupo chinês, em um empreendimento
que vai de um rio ao outro.
Elder Dias — Essa é a área do Cerrado ou da empresa?
A área que será desmatada, a da empresa é
bem maior. O povo que morava ali, vendo essa situação de a água dos rios
minguarem, assim como sua vegetação, entrou em pânico e começou a fazer
movimentações. Então, existem grandes movimentos hoje em todo o Oeste
da Bahia e de Minas Gerais no sentido de enfrentar essas pessoas. Se não
for tomada uma providência em nível federal, vamos chegar a uma
situação de calamidade pública tal que a população partirá para um
enfrentamento.
Como os empregados desses grandes grupos
têm armas, a população também está se armando para lutar contra eles. Em
um momento teremos uma situação social incontrolável, além da grande
pobreza gerada e do imenso dano ambiental. O futuro desses rios é muito
curto; pelo histórico deles nos últimos tempos, não durarão mais do que
cinco anos.
Cezar Santos — O município de Correntina está nessa região?
Sim, está, assim como Luís Eduardo Magalhães, que era parte do município de Barreiras.
Elder Dias — Então, esses dois municípios foram subdivididos em vários outros?
Sim, mas existem outros municípios ali.
Jaborandi, por exemplo, foi desmembrado de Correntina e tinha uma área
bastante preservada. Hoje, já não existe nada de Cerrado. Em Santa Maria
da Vitória, onde existe o Rio do Meio e o Rio Santo Antônio, está
havendo uma ocupação intensa de suas cabeceiras pelos chineses. São
Desidério, um município que existia entre Barreiras e Correntina, se
transformou da noite para o dia em um grande polo de desenvolvimento
regional.
No próprio município de Correntina já
existem verdadeiras “cidades” longe da cidade, cujos planos urbanísticos
foram feitos na Europa e transportados para cá. Essas cidades
localizam-se às margens dos rios. Imagine quando essas cidades começarem
a se desenvolver, como já está acontecendo, e chegarem ao tamanho de
Luís Eduardo Magalhães. Tudo que existe rio abaixo acabará. Só não sei
como essas populações vão se manter, pois a água está acabando e vai
acabar em no máximo cinco anos, se tudo continuar no ritmo de destruição
atual.
Cezar Santos — E não há denúncias
sobre essa situação por parte da imprensa baiana ou do Ministério
Público? Estão todos alheios?
Denúncias locais existem. Mas só chegam até
o Vale do São Francisco. A partir de lá, da outra margem, é outra
modalidade de política e de pensamento que domina a Bahia. Por isso,
queria criar o Estado do São Francisco, porque aquilo é outra realidade.
Tanto que os institutos de meio ambiente não têm noção do mal que estão
fazendo para a população local, ao autorizar esses desmatamentos em
larga escala. Portanto, as denúncias ficam apenas como fato localizado,
não chegam a ter ressonância.
Elder Dias — Não têm força política?
Não têm. Há mais de 20 anos tento fazer
reportagens para denúncia esse problema na região. Já levei até lá,
inclusive, veículos de alcance nacional. Fizemos várias reportagens para
o “Globo Rural” a respeito, por exemplo. Só que o foco principal vira
periférico nas matérias. Então, a situação foi se agravando e tende a se
agravar mais. Por quê? Bem, temos a Serra Geral de Goiás, formada por
calcário. As cristas de calcário apontam em Formosa. Esse calcário
mergulha até 500 metros e vai aparecer no Vale do São Francisco. A
igreja de Bom Jesus da Lapa, por exemplo, fica em uma crista do
calcário. Lagoa Santa, Rio das Velhas e Rio Doce, todos em Minas Gerais,
têm suas águas originárias das galerias do calcário. O Rio
Jequitinhonha, também. Quer dizer, esses rios são constituídos por águas
que vêm do Cerrado.
E o que alimenta essas galerias? O arenito
que está por cima do calcário. Ele tem uma cobertura vegetal e recebe a
água da chuva. Essa água é absorvida e seu excesso entra nas galerias do
calcário. Ocorre que essas galerias estão cada vez menores. Isso atinge
rios como o Doce e o do Carmo — esse que passa por Mariana e é afluente
do Rio Doce. O Rio Jequitinhonha já corre somente por uma parte de seu
trecho original. Isso faz com que o São Francisco, que depende desses
rios e das águas dos aquíferos Urucuia e Bambuí, já tenham trechos em
que se tornou possível atravessá-lo a pé.
O fenômeno é o seguinte: o arenito mergulha
e não tem mais água para “chupar”. Então, a água cai e fica na
superfície ou evapora. Quando se deixa o solo do arenito Urucuia
desnudo, há um elemento, o silte, que atua como um cimento por cima ou
cria uma crosta de argila que não deixa a água penetrar. Logo, a água
cai, evapora e vai cair em outro lugar, fazendo com que a água do
aquífero diminua até chegar ao nível de base. Hoje, para furar um poço
artesiano no local é preciso ir, às vezes, a mais de 400 metros até
atingir uma pequeníssima quantidade de água. Ora, isso significa que o
aquífero chegou a seu nível de base. Quando isso acontece é sinal que as
nascentes acima todas secaram, pois a água corre por gravidade, não
sobe. Isso faz com que só exista água nas partes baixas dos rios.
Alguns rios chegaram a secar mais de 100
quilômetros, da nascente até onde começa a correr atualmente. Tudo antes
era rio; hoje, até determinado local, só existe seu rastro e não mais o
rio.
Cezar Santos — O que está acontecendo, então, é um desastre ambiental de grande monta, como o de Mariana (MG)?
É um desastre maior ainda, na forma de um
crime contra a humanidade, pois não se pode refazê-lo mais. Todos
aqueles empreendimentos de mineração em Mariana (MG) já foram estudados
minuciosamente pela melhor escola de geologia do Brasil, que é a da
Universidade Federal de Ouro Preto. Todos os desastres como o de Mariana
já foram previstos. Primeiramente, porque lá é uma parte do
Quadrilátero Ferrífero de Minas, onde o mineral está todo fragmentado,
junto com areia e argila. Então, no mesmo local onde se cava se deixa
também as represas; com o rejeito, se reforça a cabeceira dessa barragem
para reter o rejeito que vem do material minerado, que é o ferro.
Só que, junto com o ferro, vêm a areia e
argila, que é um material muito pesado. Lava-se tudo aquilo para
purificar. Ao lavar e retirar o ferro, joga-se o rejeito nessas grandes
represas. É preciso manter o equilíbrio para chegar no máximo a 75% da
capacidade do que a represa suporta, pois, se passar disso e vier uma
chuva mais forte e aumentar o peso daquele material que já é pesado,
tudo se rompe facilmente. Afinal, a barragem é feita de rejeitos, que
não é um material apropriado para fazer barramentos, já que rejeito
absorve grandes quantidades de água, por ser poroso, feito de arenito e
argila O arenito absorve grandes quantidades de água e a argila não dá a
liga necessária para ter uma massa bem compacta. Assim, qualquer
alteração no peso desses rejeitos, vai causar rompimento de represa.
Então, isso vem sendo anunciado pela escola de geologia de Ouro Preto há
muito tempo e desde a década de 1980 vêm acontecendo casos de
rompimento de represas.
Elder Dias — Mas não nesse porte de agora, certo?
Por que o porte desse rompimento de Mariana
foi maior? Primeiro, porque foram duas represas. Uma não suportou o
impacto da outra e ambas levaram tudo que estava abaixo. Mas por que
isso ocorreu? Em função da desterritorialização do homem do campo.
Chegam as multinacionais anunciando enriquecimento fácil, a população é
atraída para a cidade e vai ocupar as áreas impróprias para moradia.
Mariana é um anticlinal, ou seja, uma cidade erguida em um morro. Havia
ocupações — ainda que antigas, como o distrito de Bento Rodrigues —
feitas nas encostas desse morro. Uma área imprópria para habitação
humana. Uma vez que essa represa se rompe, ela vai afetar cada vez mais a
população, pois cada vez mais a cidade está povoada.
Porém, se compararmos os dois fenômenos, o
de Mariana causa um grande impacto, pois mata pessoas e destrói casas.
Afinal, é uma língua de lama muito pesada, contendo fragmentos de
minério de ferro, elemento tão pesado quanto o quartzo. Aquilo vai sendo
levado até se dissolver no rio. Em um primeiro tempo é um impacto muito
grande. Mas, se pensarmos em termos de tempo da natureza e se houver
planejamento e não simples especulação imobiliária que coloque as
pessoas nas encostas da serra, um desastre como esse pode se tornar até
um elemento benéfico porque ele forma solos aluvionais, próprios para
vários tipos de cultivos, como os da civilização egípcia antiga. Eles
viviam dos aluviões trazidos pelo Rio Nilo. Ou seja, em curto prazo o
impacto ali é grande, mas no longo prazo é recuperável.
Cezar Santos — Na Bahia não vai ter como recuperar?
O que está acontecendo no Oeste da Bahia
não tem recuperação. Esse é o grande problema, pois causa um prejuízo
irreparável à humanidade. Em primeiro lugar, porque o Cerrado é uma
vegetação que já chegou ao seu clímax evolutivo. Ou seja, não pode ser
revitalizado ou replantado. Uma vez degradado, não mais se recupera. O
segundo ponto é que as águas que dependem da absorção da chuva pelo
sistema radicular complexo do Cerrado estão diminuindo. Vai chegar um
tempo em que elas vão sumir. Isso acontecendo, primeiro vão desaparecer
todos os afluentes da margem esquerda do São Francisco, que são os que
mantêm a perenização do rio.
Todos os rios provenientes de aquífero são
perenes, ou seja, correm de forma contínua, não ficam secos. Os que não
são provenientes de aquíferos dependem do lençol freático. Este pode ser
afetado de duas formas. O primeiro é por estiagem prolongada, não
dependendo da ação do homem, mas da natureza — este ano foi o mais agudo
do fenômeno El Niño, que traz chuvas demasiadas para alguns locais e
também grandes estiagens para outros. Outros fenômenos que afetam as
correntes aéreas — por sua vez afetadas pelas correntes marítimas, que
dependem da temperatura da água do mar. As correntes aéreas, ao longo do
tempo, demonstram que são cíclicas.
Vamos tomar um tempo geológico mais
recente, por exemplo. Há 11 mil anos houve o fim da última era glacial. A
neve recuou em direção ao Polo Norte, depois de estar quase ao nível do
trópico. Nesse fenômeno, a neve derrete e o nível do mar começa então a
subir e há uma transformação muito grande no interior dos continentes. A
água do mar começa a se aquecer e, com isso, as correntes marinhas
mudam de direção, influenciando as correntes aéreas. Em suma, onde era
deserto começa a chover e onde chovia fica mais seco. Temos como exemplo
o deserto de Atacama, no Chile, que até então era uma área de floresta
temperada, com grandes lagos. Hoje é o mais seco deserto do mundo e os
lagos viraram depósitos de sal. A Amazônia era, então, o chamado Deserto
de Óbidos. Transformou-se totalmente, em uma área de floresta
equatorial úmida. De 11 mil anos para cá, o que houve foi uma mudança na
circulação das correntes marinhas. São ciclos da terra, influenciados
por um mecanismo que ocorre em seu interior, chamado correntes de
convecção, que ocorrem no chamado manto da terra. Ora essas correntes
são frias, ora quentes. Quando são frias, vão resfriar o fundo do
oceano; a água, então, sobe fria até a superfície, mudando a direção
das correntes marinhas. Se for quente, ocorre da mesma forma: além do
aquecimento das águas oceânicas, isso pode provocar outros fenômenos.
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